25 de mar. de 2013

Como uma pessoa boa e cordial pode agir de maneira má e egoísta no trânsito?


As frases abaixo são como “vozes” da consciência, segundos antes do comportamento...
 
“– Vou parar aqui mesmo! É só pra João Marcos entrar no colégio com segurança...” (para em fila dupla).

“– Não atrapalha tanto assim o trânsito... Vou atender!” (usa o celular enquanto dirige).

“– Ele vai desfilar em vez de passar.” (não prioriza o pedestre que está esperando na faixa).

“– Não há fiscalização!” (dirige em alta velocidade).
 
O que elas têm em comum? São justificativas que damos a nós mesmos (ou autojustificativas), após a consciência interrogar sobre a razão de fazermos algo errado. Autojustificativas como estas, que atentam contra nossa moralidade, isto é, contra nosso conjunto de princípios sobre o que é certo ou errado, com o objetivo de alcançarmos um benefício momentâneo, chamam-se: Desengajamento moral.
 
Carro do então ministro Mangabeira Unger (governo Lula), estacionado irregularmente em vaga reservada para deficiente físico
Sua função é fazer com que não soframos – ou não soframos tanto – por uma ação que normalmente reprovamos em nós mesmos. Ao “relaxarmos” a autocensura, diminuímos o sentimento de culpa. Por essa razão, uma pessoa tão boa e cordial como você, amigo leitor, poderá agir de maneira muito má e egoísta no trânsito. Mesmo que seja um intelectual reconhecido internacionalmente, professor da Universidade de Harvard, ex-professor do atual presidente dos Estados Unidos, e ministro de estado no governo Lula (veja foto ao lado e a nota:"Ministro Mangabeira Unger estaciona carro em vaga para deficientes").
 
Mas, como se constrói esse tipo de autojustificativa? De várias maneiras, afinal, o ser humano é muito criativo. Para entender, é preciso, primeiramente, ter clareza que, em qualquer situação, existe pelo menos: (1) a conduta repreensível, (2) seu efeito e (3) a possível vítima. Esses três elementos – ou a combinação entre eles –, por sua vez, são as bases racionais da transgressão.
 
A autojustificativa com base na conduta repreensível, por exemplo, geralmente é feita reinterpretando nossa ação para torná-la aceitável. Interessante, não? Um exemplo é o primeiro pensamento no início do texto: “...É só pra João Marcos entrar no colégio com segurança...”. Neste caso, a mãe de JM tenta tornar a conduta transgressiva – parar em fila dupla – numa conduta aceitável e prioritária, que é proporcionar segurança ao filho.
 
A autojustificativa com base no efeito da transgressão, por sua vez, é realizada pela deturpação ou desconsideração das consequências danosas da nossa ação. Visa especificamente a minimizar a intensidade dos (possíveis) danos causados, como no segundo pensamento: “– Não atrapalha tanto assim o trânsito... Vou atender!”. Com isso, o motorista desconsiderou as consequências de atender o celular enquanto dirige.
 
A autojustificativa a partir da vítima acontece quando o praticante da ação, isto é, o transgressor, inverte a situação. Ele culpa ou desmerece a vítima, conforme o terceiro pensamento: “– Ele vai desfilar em vez de passar”. O pedestre é o culpado do motorista não parar (por “desfilar” em vez de “passar”), razão pela qual não merece prioridade. Quanta criatividade!
 
Finalmente, existe outra maneira de se construir essas autojustificativas. O praticante da conduta ofusca a sua responsabilidade pessoal sobre a ação. Repare no quarto pensamento acima: “– Não há fiscalização!”. (dirige em alta velocidade).
 
Apesar de todo esse esforço pessoal – seja de reinterpretar a situação tornando-a aceitável, de deturpar ou desconsiderar as consequências danosas, culpar a vítima ou de ofuscar nossa responsabilidade –, o comportamento imoral pode ter consequências muito graves para as pessoas e para nós. Por exemplo, num caso real, parar em fila dupla para deixar o filho na escola quase terminou em assassinato. Semelhante ao exemplo no início do texto, uma mãe trancou, por alguns minutos, uma pista em frente ao colégio do filho. Profundamente irritado, um motorista de van escolar que estava logo atrás, desceu armado para tomar satisfação. Felizmente, os transeuntes o imobilizaram. Tudo começou com o desengajamento moral...
 
Esse é um caso extremo, claro; mas ilustra as consequências potencialmente desastrosas desse tipo de autojustificativa. Isto porque, ao mesmo tempo em que nos permitimos fazer o que é errado, também prejudicamos nossa avaliação das consequências objetivas do comportamento. Afinal, a autojustificativa, de maneira alguma, diminui objetivamente o dano decorrente da transgressão. Pense nisso!
 
Para ajudar ainda mais em suas reflexões, seguem algumas situações muito comuns em que você poderá sentir-se propenso a se desengajar moralmente. Para cada situação, peço que identifique as autojustificativas mais frequentes que lhe permitem fazer o que não é certo.
 
Exemplo:
  • Ultrapassar o sinal vermelho: “não tem fiscalização eletrônica”, “tô atrasado”, “já fiquei parado tempo demais neste cruzamento”, “o sinal verde fica pouco tempo” 

  • Dar uma “fechada” em alguém:_______________________________________
  • Jogar lixo pra fora do carro:__________________________________________
  • Estacionar em local proibido:_________________________________________
  • Tomar uns choppinhos antes de dirigir:_________________________________
  • Passar por cima de um canteiro para cortar caminho:______________________
  • Estacionar em vagas reservadas inadequadamente:________________________
  • Virar em local proibido:_____________________________________________
  • Não usar cinto de segurança:_________________________________________
  • Estacionar em cima da calçada:_______________________________________
 
Agora pense nas consequências reais ou potenciais para as pessoas ou para você decorrentes disso...
 
Espero que, ao final deste exercício, você mesmo possa identificar as situações e evitar seu desengajamento moral, mantendo-se coerente como uma pessoa boa e cordial em qualquer situação, inclusive no trânsito. 
 
Agradecimentos: 
À professora Ms. Lílian de Cristo e ao professor Dr. Fábio Iglesias, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, pela leitura crítica da versão preliminar deste texto.
 
Para saber mais: 
 
Bandura, A., Barbaranelli, C., Caprara, G. V., & Pastorelli, C. (1996). Mechanisms of moral disengagement in the exercise of moral agency. Journal of Personality and Social Psychology, 71(2), 364-374.
 
Iglesias, F. (2008). Desengajamento moral. In A. Bandura, R. Azzi & S. Polydoro (Eds.), Teoria social cognitiva: Conceitos básicos (pp.165-176). Porto Alegre: Artmed.
 
Neto, I. L., Iglesias, F., & Günther (2012). Uma medida de justificativas de motoristas para infrações de trânsito. Psico, 43(1), 7-13. Disponível em:
 http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistapsico/article/viewFile/11088/7613 

Fonte: 

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