A urgência constante faz
com que muitos usuários das vias adotem atitudes impulsivas e perigosas, como
acelerar além do permitido, atravessar fora da faixa de pedestres, utilizar o
celular enquanto caminham ou dirigem, disputar espaço nas vias e ignorar
sinalizações. O problema da pressa não está apenas na velocidade dos veículos,
mas na forma como ela reduz a atenção, enfraquece a percepção de risco e
dificulta que as pessoas enxerguem o outro no trânsito.
Os números revelam a
gravidade dessa realidade. Em 2024, o Brasil registrou 37.150 mortes
decorrentes de sinistros de trânsito, segundo dados do DATASUS. O excesso de velocidade permanece
entre os principais fatores relacionados às ocorrências graves e fatais. Segundo
a Organização Mundial da Saúde, a cada aumento de 1% na velocidade
de um veículo, o risco de sinistros com morte cresce em 4%. Esses dados
evidenciam que a violência viária não pode ser compreendida apenas como
resultado de falhas técnicas ou infrações isoladas. Trata-se também de um problema
cultural e comportamental.
Nesse contexto, a
educação assume papel essencial. Fiscalização, multas e engenharia de tráfego
são importantes, mas não suficientes para promover mudanças profundas e
duradouras. A transformação do trânsito passa, necessariamente, pela formação
de valores, atitudes e comportamentos mais seguros e humanizados.
Educação para o Trânsito:
Um processo contínuo
Durante muito tempo, a
educação para o trânsito esteve associada a ações pontuais, palestras isoladas
e campanhas realizadas apenas em períodos específicos, como a Semana Nacional
de Trânsito ou o Maio Amarelo. Embora essas iniciativas tenham relevância social,
elas não conseguem, sozinhas, modificar comportamentos consolidados ao longo da
vida.
A construção de atitudes
seguras exige continuidade. Assim como ninguém aprende leitura, escrita ou
matemática em uma única aula, também não se desenvolvem prudência, empatia,
percepção de risco e responsabilidade coletiva por meio de ações esporádicas.
A educação para o trânsito precisa ocorrer de forma permanente, integrada ao
cotidiano escolar e conectada às experiências concretas dos estudantes.
Essa necessidade
torna-se ainda mais evidente quando compreendemos que o trânsito faz parte da
vida diária das pessoas. Ele está presente no caminho até a escola, no
deslocamento para o trabalho, nas travessias das ruas, no uso do transporte
coletivo, nas atividades de lazer e nas interações sociais cotidianas. Todos
transitam diariamente, seja como pedestres, passageiros, ciclistas ou
condutores.
As crianças vivenciam o
trânsito desde cedo, observando os comportamentos dos adultos, utilizando
transporte escolar e convivendo com diferentes situações nas vias públicas. Os
adolescentes também experienciam diariamente os desafios relacionados à
mobilidade urbana, à convivência coletiva e à cultura da pressa. Por isso, a
educação para o trânsito não pode ser tratada como um conteúdo distante da
realidade dos estudantes ou restrito a momentos específicos do calendário
escolar.
Mais do que ensinar
placas, leis e infrações, educar para o trânsito significa formar sujeitos
capazes de conviver, respeitar limites, perceber riscos, controlar impulsos e
reconhecer o outro como alguém que também possui direito à vida e à segurança.
A transversalidade da
educação para o trânsito
Essa compreensão
fortalece a importância da transversalidade da educação para o trânsito na
escola. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece a Educação para o Trânsito
como Tema Contemporâneo Transversal, orientando que sua abordagem esteja
presente em diferentes áreas do conhecimento e componentes curriculares da
Educação Básica.
Isso significa que o
trânsito não deve aparecer apenas em atividades isoladas, mas integrar práticas
pedagógicas contínuas, transversais e interdisciplinares. A transversalidade
permite discutir segurança viária, por exemplo, em Matemática, por meio da
análise de gráficos, situações-problema e dados estatísticos; em Língua
Portuguesa, com leitura, gramática e produção de textos; em História e
Geografia, ao abordar mobilidade urbana e cidadania; em Arte, por meio de
produções criativas; e em Educação Física, com atividades corporais
relacionadas à atenção e ao movimento.
O Programa Conexão
DNIT e o apoio às escolas
Para apoiar as escolas
nesse processo, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes
(DNIT), em parceria com o Laboratório de Transportes e Logística da Universidade
Federal de Santa Catarina, desenvolveu o Programa
Conexão DNIT, uma
plataforma educacional gratuita voltada à Educação para o Trânsito, de forma
contínua, transversal e inovadora nas escolas brasileiras. Com abrangência
nacional, o programa atua por meio de parcerias com
instituições públicas, privadas e secretarias de educação, disponibilizando
gratuitamente conteúdos digitais em portal web e aplicativo.
Seu principal
diferencial é o banco com mais de 300 atividades pedagógicas alinhadas à BNCC para o Ensino Fundamental e Médio. As
propostas utilizam metodologias ativas e são organizadas em blocos didáticos
que incluem percurso pedagógico, fundamentação teórica, orientações
metodológicas, exercícios, avaliação e sugestões de desdobramentos interdisciplinares.
As atividades possuem versões específicas para professores e estudantes. O
programa oferece ainda cursos de formação continuada pelo AVAMEC, fortalecendo a integração da
educação para o trânsito ao cotidiano escolar.
As atividades do Conexão
DNIT demonstram que é
possível abordar temas complexos, como velocidade, pressa e segurança viária,
de maneira significativa e adequada às diferentes faixas etárias.
Uma das propostas
educativas do programa com esta temática é a atividade Caminhe sem
pressa, caminhe seguro!, desenvolvida para estudantes do 2º ano do
Ensino Fundamental. A atividade relaciona as regras de convivência na escola às
regras de segurança no trânsito, articulando-se ao componente curricular de
História por meio das relações de convivência, das interações sociais e da
construção coletiva de regras para o espaço comum.
A partir da narrativa de
um estudante que corre apressado para o recreio e acaba provocando um sinistro
de trânsito, as crianças refletem sobre a importância de caminhar com atenção,
respeitar o espaço dos colegas e compreender que determinadas regras existem
para proteger as pessoas. O material estabelece paralelos entre os
deslocamentos dentro da escola e os deslocamentos nas vias públicas, ajudando
os estudantes a perceberem que prudência e respeito precisam estar presentes em
todos os espaços de convivência.
Outra proposta educativa
é A lebre e a pressa no trânsito, voltada ao 4º ano do Ensino
Fundamental. Inspirada na clássica fábula A lebre e a tartaruga, a
atividade utiliza a narrativa para discutir os comportamentos apressados e
impulsivos no trânsito, articulando-se ao componente
curricular de Língua Portuguesa por meio da leitura, interpretação, oralidade e
produção escrita.
Os estudantes analisam
as atitudes da personagem lebre e refletem sobre como a pressa pode levar
pessoas a cometerem erros e assumirem riscos desnecessários nas vias. Em
seguida, produzem bilhetes orientando a personagem sobre atitudes mais
prudentes e seguras.
O uso de narrativas e
personagens conhecidos aproxima o tema da realidade infantil e contribui para o
desenvolvimento da percepção de risco, da empatia e da reflexão crítica sobre
os próprios comportamentos.
O tema da pressa também
pode ser trabalhado a partir da análise de dados reais. Nas atividades Perca
tempo, mas não a vida! e Contabilizando velocidades,
desenvolvidas para o 4º e 5º anos do Ensino Fundamental, os estudantes utilizam
conceitos matemáticos para compreender as consequências da velocidade excessiva
e da desatenção no trânsito.
Por meio da leitura de
tabelas, gráficos e cálculos envolvendo porcentagens e limites de velocidade,
os estudantes analisam dados sobre sinistros de trânsito e compreendem que o
excesso de velocidade não representa apenas uma infração legal, mas um risco
concreto à vida humana.
Ao relacionar Matemática
e segurança viária, as atividades mostram que os números não são abstratos,
eles representam pessoas feridas, famílias afetadas e vidas interrompidas.
Dessa forma, os estudantes desenvolvem tanto habilidades curriculares quanto
consciência crítica sobre os impactos da violência no trânsito.
Além das atividades
apresentadas, o Programa Conexão DNIT disponibiliza diversas outras
propostas pedagógicas relacionadas ao tema da pressa, da atenção, da
convivência segura no trânsito, entre outros assuntos importantes para a
promoção da segurança viária.
As experiências
desenvolvidas pelo Conexão DNIT demonstram que a educação para o
trânsito pode ocorrer de forma contínua, transversal e significativa. Mais do
que ensinar normas, essas propostas contribuem para a formação de cidadãos
capazes de agir com prudência, responsabilidade e empatia.
Em uma sociedade marcada
pela pressa, ensinar a desacelerar tornou-se um desafio urgente. A escola
possui competência fundamental nesse processo porque trabalha diretamente com
formação humana, convivência e cidadania. Quando promove reflexões sobre atenção,
respeito, paciência e valorização da vida, contribui não apenas para um
trânsito mais seguro, mas para relações sociais mais humanas.
Irene
Rios




















