9 de nov. de 2014

O que aconteceria na Suécia com o juiz parado numa blitz no Rio

Por Claudia Wallin, de Estocolmo
A agente de trânsito e o juiz
A agente de trânsito e o juiz
”Por que o Rei não fez o teste do bafômetro na hora?”, perguntou certa vez um repórter do jornal sueco Expressen ao Rei da Suécia, Carl XVI Gustaf, no dia seguinte a um pequeno acidente de trânsito protagonizado pelo monarca. Um dia normal na Suécia, onde autoridades não têm complexo de Deus e a síndrome do ”você-sabe-com-quem-está-falando” é tão improvável quanto a volta dos mortos ou a autocrítica dos cretinos.
O episódio da agente de trânsito condenada por danos morais após abordar um juiz em uma blitz da Lei Seca, na zona sul do Rio de Janeiro, demonstra que alguns magistrados brasileiros parecem pensar que são deuses – e que muitos têm a certeza de que são.
Quando foi parado, o juiz e guardião da lei João Carlos de Souza Corrêa dirigia sem a carteira de habilitação, sem placa no carro, e sem os documentos do veículo. Diante do óbvio delito, a agente do Detran Luciana Silva Tamburini informou o juiz que o carro teria que ser apreendido. Houve um entrevero verbal. Segundo Luciana, o juiz, irritado, se identificou como magistrado e deu voz de prisão a ela. O juiz reclama que a agente teria dito que ele era ”juiz, mas não Deus”. O caso ocorreu em 2011.
O desembargador José Carlos Paes, da 14a. Câmara Civil do Tribunal de Justiça do Estado do RJ, condena agora Tamburini a pagar R$ 5 mil ao juiz, por ter ”desafiado a própria magistratura e tudo o que ela representa”.
Antes que alguma idéia de se conceder um auxílio-divindade a juízes pegue, manda a lógica concordar que o respeito deve pautar – em mão dupla – a relação entre agentes que trabalham para fazer valer a lei e magistrados que têm o dever de defender o primado da lei. Assim como a relação entre qualquer cidadão e qualquer autoridade.
Mas manda a sensatez que se modernize o conceito de ”autoridade”, em uma sociedade já farta de carteiradas. Antes que seja condenado à morte o respeito da população pela sua Justiça.
Vejamos o caso da Suécia, por exemplo.
Neste país escandinavo, não existe autoridade pública. O que existe é servidor público.
Juízes, políticos, militares, funcionários públicos de alta patente – ninguém está acima de nenhum outro cidadão, e ninguém tem direito a tratamento diferenciado. As leis e os bafômetros são iguais para todos.
A régia exceção é o velho rei, com seu privilégio de dias contados: nem a Rainha Silvia, nem a herdeira da Coroa sueca e nem seus irmãos são imunes aos apitos dos guardas de trânsito e aos rigores da Justiça.
Assim foi que, sem medo de exercer seu ofício, um guarda parou no trânsito a princesa Madeleine, irmã da herdeira da Coroa, quando ela dirigia um Volvo XC 60, da frota real, na faixa reservada aos ônibus no centro de Estocolmo. Madeleine tinha pressa: faltavam quatro dias para o seu casamento com um plebeu americano, e pela lei aquele evento de grandeza real dava permissão especial aos carros da Corte de trafegar na faixa exclusiva. Mas o agente de trânsito desconhecia a tal permissão, e a punição foi diligentemente aplicada naquele verão de 2012.
A princesa foi multada por usar a faixa de ônibus
A princesa foi multada por usar a faixa de ônibus
”Já estamos emitindo uma multa no valor de mil coroas suecas (cerca de R$ 345)”, disse o policial Lars Lindholm.
Consumado o fato, Madeleine seguiu seu caminho. Coube então ao porta-voz da Corte lembrar à polícia a permissão especial que dá de fato aos carros da frota real o direito de dirigir na faixa reservada a ônibus em ocasiões extraordinárias, como dias de visita oficial ao país. E o casamento real de Madeleine, com a chegada de centenas de aristocratas e autoridades estrangeiras à capital sueca, configurava uma dessas ocasiões especiais.
”A princesa não tentou alegar nenhum tipo de imunidade”, destacou o porta-voz.
”Devido às circunstâncias especiais deste caso, a multa será retirada”, comunicou então o porta-voz policial Hans Brandt.
Madeleine livrou-se assim, no último minuto, da multa policial.
Mas não faltam exemplos, na Suécia, de punições exemplares a ”autoridades” públicas.
Em 2010, o deputado Sture Andersson, do Partido do Centro (Centerpartiet), foi parado pela polícia na cidade de Skellefteå quando dirigia seu carro sob efeito de álcool. Como manda a lei, soprou o bafômetro. O teste constatou que Sture tinha naquele momento um nível de álcool no sangue de 1,64% - muito acima do limite máximo de 0,02% estabelecido pela lei sueca. A punição: o político foi condenado a um mês de prisão, além do pagamento de multa de 37 mil coroas suecas (cerca de R$12,8 mil) e das custas processuais.
Sture tentou apelar da decisão junto ao Supremo Tribunal da Suécia. Sem resultado: o Supremo confirmou a sentença, e o deputado foi para o xadrez.
Em 2012, a polícia abordou um juiz durante uma blitz na região de Växsjö, e pediu que ele soprasse o bafômetro. O teste acusou 0,58% de álcool no sangue. Imediatamente, o policial confiscou a carteira de habilitação do juiz, que também foi condenado a pagar multa de 30 mil coroas suecas (cerca de R$10,3 mil).
São vários os casos de autoridades que, na Suécia, são tratadas como qualquer cidadão. Horror, horror.
Em 2010, o próprio chefe regional da polícia, jurista e reitor da Escola Nacional da Polícia Sueca, Göran Lindberg, foi preso e condenado a seis anos de prisão, por crimes sexuais.
”O problema no Brasil é que ainda existe uma inversão de valores sobre o que é ser uma autoridade pública”, diz o policial brasileiro Gustavo Fulgêncio, que desde 2007 trabalha na divisão internacional da polícia sueca.
”A autoridade pública brasileira não quer aceitar o fato de que a autoridade da qual ela está imbuída vem dos cidadãos, e que por isso ela deve trabalhar para o povo. Este é o sentido democrático de autoridade. É o povo que paga o meu salário, então eu trabalho para o povo. No Brasil, ainda sobrevive o conceito de que a autoridade está acima dos cidadãos: ’agora eu sou uma autoridade, e você está abaixo de mim´”, observa o policial, que é também aluno do curso de Ciências Políticas da Universidade de Estocolmo.
Casos como o episódio do juiz-que-não-é-deus jamais aconteceriam na sociedade sueca, diz Gustavo, que antes de chegar à Suécia no ano 2000 trabalhou dez anos na polícia militar de Pernambuco:
”Este tipo de situação não acontece por aqui. E se um juiz ou um político sueco se recusassem a soprar o bafômetro, por exemplo, nós os levaríamos diretamente à delegacia para fazer o exame de sangue”.
”A lei aqui é para todos”, destaca o policial brasileiro, com a devida ressalva à exceção do rei.
Pela lei sueca, o rei Carl XVI Gustaf deveria ter permanecido na cena do acidente de trânsito em que se envolveu, a fim de realizar o teste do bafômetro – esta é a norma para todos os cidadãos.
”O rei deveria ter feito o teste a fim de dar o exemplo, apesar de ser o único que não é obrigado a cumprir esta norma”, disse o funcionário do Vägverket (Departamento de Trânsito sueco) Hans Laurell à época do acidente, ocorrido em 2005.
Abordado pelo repórter do Expressen sobre o bafômetro, o soberano optou pela fleuma e o silêncio real. O jornal estampou em sua manchete: ”O Rei deveria ter soprado o bafômetro”. E ninguém foi processado, nem condenado, por abuso ou desrespeito ao Chefe de Estado sueco.
No Brasil, o êxito da ”divina vaquinha”, a campanha virtual organizada com a hashtag #juiznaoehdeus# a fim de coletar doações para o pagamento da multa imposta à agente do Detran, é um recado claro de que a sociedade está mais atenta aos seus direitos: ao lidar com o cidadão, a autoridade pública também precisa saber com quem está falando.
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Claudia Wallin
Sobre a Autora
A jornalista brasileira Claudia Wallin, radicada em Estocolmo, é autora do livro Um país sem excelências e mordomias.


Fonte:

8 de nov. de 2014

Acredite! Experimente!

Trechos da obra.

Você é o único responsável por sua vida

- Ai! Que raiva!
- O que foi Cris? O que você tem?
- Não suporto mais meu chefe, por causa dele não vou pra frente. Ganho mal, não tenho namorado, sou uma infeliz.

É fácil culpar os outros por nossas atitudes. Sempre é possível encontrar alguém ou alguma circunstância para responsabilizar por nossa doença, nossa pobreza e nossa infelicidade. O marido, os filhos, as amizades, o emprego, o governo, o tempo...

Você é o que pensa. Você sente o que pensa, você atrai o que pensa. Logo você é responsável por seus atos, por seus sentimentos, por sua vida.

Você Pode escolher e atrair o que quiser para sua vida.

Quer ter saúde, um bom emprego, bons relacionamentos, felicidade. Quer mudar de vida? Experimente mudar sua maneira de pensar.

É você que decide
o que quer ser,
o seu lugar
é você que vai escolher.
Para grandes conquistas
é necessário querer,
ter determinação
e a vontade obedecer,
acreditar plenamente
que “Querer é poder”.
Caminhe com seus pés,
busque a vitória,
defina suas metas,
trace sua trajetória,
você tem livre-arbítrio,
é você quem faz a história.

- Estou tão feliz, Mara.
- Estou vendo. O que aconteceu, Cris?
- Mudei minha maneira de pensar. Agora tudo está dando certo na minha vida.

Pensamos, Sentimos, Agimos e Recebemos

Pensamentos atraem sentimentos. Sentimentos atraem ações. Ações atraem resultados.

Portanto para que você consiga os resultados desejados, seus pensamentos, sentimentos e ações precisam estar em harmonia.

Experimente!

Para atrair riqueza, pense como rico, pare de reclamar a falta de dinheiro e aproveite as oportunidades.

Para atrair saúde pense como uma pessoa saudável, pare de se lamentar e saia da cama.

Aja e fale de acordo com seus pensamentos e sentimentos.

Só faça aos outros o que gostaria que fizessem com você

Faça o bem, você vai se sentir melhor e vai atrair o bem para você. Antes de tomar determinadas atitudes, coloque-se no lugar do outro. Pergunte a você mesmo se gostaria que alguém tomasse tal com você. 

ESCOLHA O MELHOR PARA O SEU TRABALHO

Temos o poder de fazer nosso trabalho ser prazeroso e bem sucedido.

Aprenda a gostar do que faz

- Não acredito que amanhã é segunda-feira e tenho que trabalhar.
- O que é isso, Vanessa? Faz pouco tempo que mudou de emprego. Não está gostando de novo.

Muitas pessoas, no ambiente de trabalho, reclamam de tudo e de todos, ficam o tempo todo olhando no relógio, esperando a hora de ir para casa. Quando termina o expediente, pronunciam a terrível frase “Mais um dia para a aposentadoria”.

Com esses pensamentos e atitudes essas pessoas transformam seu trabalho, por melhor que seja, num sacrifício.

Experimente!

Pense positivo sobre sua atividade profissional. Afirme com convicção que gosta do que faz, que sente prazer em exercer determinada atividade.

Você vai encontrar motivos que transformarão seu pensamento em realidade.

Fazer o que gosta,
todos correm atrás,
convictos de que é a fórmula
pra ser feliz e eficaz,
não sabem que o segredo,
está em gostar do que faz.

- Mudou de emprego, Vanessa?
- Claro que não! Adoro o que faço. Estou sempre aprendendo, trocando experiências. Cresci e ainda vou crescer muito neste emprego.
- Nossa! Que mudança!
- Simplesmente mudei meus pensamentos e minhas atitudes.

Escolha a Solução

- Como foi a reunião de diretoria?
- Como sempre, Cássio. Ficamos discutindo sobre uma série de problemas: as vendas estão fracas, as despesas estão altas...

Muitas vezes ficamos horas pensando, falando e nos concentrando nos problemas. Agindo dessa maneira estamos valorizando e atraindo mais problemas.

Experimente!

Pense e deseje a solução, acredite que ela virá. Concentre-se nisso.

Aproveite as oportunidades que surgirem. Quando tiver uma intuição ou uma ideia acredite nela, aja e coloque-a em prática. É a Lei da Atração atuando no seu trabalho.

- E aí, Lucas. Como está no seu trabalho?
- Melhorou muito, Cássio. Tivemos uma palestra que nos fez mudar a maneira de pensar. Agora nos concentramos e acreditamos nas soluções. Estamos conseguindo solucionar todos os problemas.

Escolha o Sucesso
           
- Vitor, vi no jornal que seu primo vai ser homenageado. Que sucesso! Você vai na homenagem?
- Eu não. Acho ele muito abusado.
- E o nosso negócio, quando vamos abrir?
Não sei, Paulo. E se a gente fracassar?

Julgar e criticar as pessoas bem sucedidas só vai afastar o sucesso de sua vida. Pensar em fracasso atrai fracasso.

Experimente!

Admire e aplauda o sucesso dos outros. Procure seguir seus exemplos, com certeza são pessoas com pensamentos positivos.

Invista em você, acredite no seu sucesso.

Saiba aplaudir
os sucessos de outrem,
não sinta inveja,
pois isto não faz bem,
persista em seus sonhos
que conseguiras também.

Escolha falar bem
           
- Matilde, preciso de contar. Aquela moça do 306 trocou de namorado de novo.
- Tem gente que não tem vergonha mesmo.
- Essa daí então, tá toda semana com um namorado diferente.

Muitas pessoas passam seus dias falando mal da vida alheia. Você deve conhecer alguém que vivia criticando a filha da vizinha que era mãe solteira. Falou tanto que atraiu o mesmo destino para sua filha. Se você fala mal, pensa no mal, se concentra no mal, atrai o mal.

Experimente!

Não dê crédito ao fofoqueiro,
sua função não faz nenhum bem.
Hoje estás ouvindo-o contar
a fofoca de outrem,
amanhã contará a outro
uma fofoca de você, também.

As Três Peneiras
Autor desconhecido

Augustus procurou Sócrates e disse-lhe:

- Sócrates, preciso contar-lhe algo sobre alguém! Você não imagina o que me contaram a respeito de... Nem chegou a terminar a frase, quando Sócrates ergueu os olhos do livro que lia e perguntou:

- Espere um pouco Augustus. O que vai me contar já passou pelo crivo das três peneiras?

- Peneiras? Que peneiras? - Sim. A primeira, Augustus, é a da verdade. Você tem certeza de que o que vai me contar é absolutamente verdadeiro?

- Não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram!

- Então suas palavras já vazaram a primeira peneira. Vamos então para a segunda peneira: a bondade. O que vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?

- Não, Sócrates! Absolutamente, não!

- Então suas palavras vazaram, também, a segunda peneira. Vamos agora para a terceira peneira: a necessidade. Você acha mesmo necessário contar-me esse fato, ou mesmo passá-lo adiante? Resolve alguma coisa? Ajuda alguém? Melhora alguma coisa?

- Não, Sócrates... Passando pelo crivo das três peneiras, compreendi que nada me resta do que iria contar. E Sócrates sorrindo concluiu:

- Se passar pelas três peneiras, conte! Tanto eu, quanto você e os outros iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo.

Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos. Devemos ser sempre a estação terminal de qualquer comentário infeliz! Da próxima vez que ouvir algo, antes de ceder ao impulso de passá-lo adiante, submeta-o ao crivo das três peneiras por que:

Pessoas sábias falam sobre ideias.

Pessoas comuns falam sobre coisas.

Pessoas medíocres falam sobre pessoas.

O MELHOR PARA A SUA VIDA

Escolha ver e ouvir o melhor

- Você viu a cena daquele cara que caiu de moto e depois foi torturado?
- Muito legal cara. Outro dia vi um filme cheio dessas cenas fortes.
- Adoro esse tipo de filme. Essas cenas ficam na minha mente por um tempão.

Nossos sentidos influenciam nossos pensamentos, ou seja. o que vemos interfere em nossos pensamentos.

Cenas violentas, onde os personagens passam por situações que jamais gostaríamos de passar nos impressionam e ficam gravadas em nossa mente, causando medo e revolta.

Experimente!

Leia textos que estimulam, que constroem que provocam descontração. Assista apenas a filmes e cenas que lhe fazem bem. Não polua sua mente com problemas.

- Oi, Bete. Vamos ao cinema hoje?
- Só se for para assistir a uma comédia.
- Você assistindo comédia? Não estou te reconhecendo.
- É isso mesmo. Ultimamente só assisto a comédias e filmes de amor com final feliz. Até os telejornais estou evitando. Estou mais tranquila e mais otimista, agindo assim.

Escolha o conhecimento

- Lá vem você, cheia de livros de novo. Em vez de comprar comida e roupa, compra livro Em vez de sair com os amigos fica ali lendo.
- Mãe, ler é maravilhoso. Através da leitura aprendemos muito, aprendemos a viver melhor. Experimente! Vou emprestar um livro para a Senhora.         

O maior problema e o maior mal do homem é a ignorância.

Algumas pessoas não usam a Lei da Atração porque não acreditam, outros por não ter paciência, mas a maioria não usa por não conhecer seu funcionamento e seus benefícios.

Experimente!

Leia sobre a Lei da Atração, sobre o pensamento positivo, sobre a mente, sobre o subconsciente, sobre a fé...
É preciso conhecer para entender. Leia, pratique e divulgue seu conhecimento. Desta forma, além de viver melhor, estarás contribuindo para um mundo melhor.

- Obrigado pelo livro, minha filha.
- Sabia que a Senhora ia gostar.
- Se eu soubesse da Lei da Atração antes minha vida tinha sido diferente. Mas o que importa é daqui pra frente. Estou muito feliz, minha filha.


6 de nov. de 2014

A “Indústria da Multa” e o desengajamento moral


A indústria da multa
Desde o dia 1º de novembro várias infrações tiveram suas multas majoradas em até 900% e algumas penas de crime de trânsito foram ampliadas. Quando medidas como essa são adotadas, alguns sempre levantam a voz para vociferar que o objetivo é meramente arrecadatório e que o quê “verdadeiramente” se pretende é fomentar a “indústria da multa” pretensamente existente no Brasil. Mas, sob a ótica de uma análise mais aprofundada, serão esses argumentos uma desculpa para os infratores se desengajaram moralmente dos atos sociais reprováveis que cometem e assim perpetuar o famoso “jeitinho brasileiro”?

É bom lembrar que os valores das multas estipuladas em nosso CTB estão “congelados” desde o ano de 2000, em função do fim da UFIR (Unidade Fiscal de Referência), indexador que foi estabelecido para corrigir valores mensalmente numa época em que a inflação era muito elevada numa fase de transição para o estabelecimento da nossa nova moeda o Real. Por conta disso, os valores que inibiam os potenciais infratores passaram a ser mais acessíveis e aí cometer uma multa se tornou algo não tão proibitivo. As estatísticas mostram claramente que o número de óbitos decaiu de 35.620 em 1997 para 28.495 em 2000 e, a partir de então, voltou a subir ano a ano até alcançar mais de 50 mil atualmente.
Em primeiro lugar, não se pode perder de vista que, segundo a Teoria das Penas, a imposição de uma sanção (multa) ou pena (crime) deriva de uma conduta ilícita, antijurídica e culpável, destinada a todo aquele que desrespeitou uma norma legislativa, ou seja, não se lavram infrações de trânsito contra inocentes.
Complementarmente, deve-se ter em mente que a finalidade da lavratura de uma infração de trânsito e a consequente aplicação de uma multa, pena e pontuação no prontuário da CNH é a manutenção da ordem social e jurídica, da afirmação do princípio da igualdade sobre a ânsia pelo exclusivismo e sobrelevação de alguns perante a coletividade.
Para isso, a multa deve causar os seguintes efeitos como orientadora de comportamento social: 1º) Coibir a pretensão da prática infracional, ou seja, o indivíduo deve refletir sobre a real valia dos benefícios da prática em relação às suas consequências, caso seja flagrado, antes de cometê-la; 2º) Servir para redimir e causar prejuízo ao infrator, ou seja, deve ficar latente a percepção de que a prática infracional não foi compensatória e que, portanto, não deve ser praticada novamente; 3º) A aplicação da pena deve servir como advertência para outros potenciais infratores que a prática infracional em questão não compensa.
Esses efeitos da pena somente são alcançados no ambiente trânsito se: 1º) As multas realmente foram altas, assim como o apontamento de pontuação em CNH e as possibilidades de suspensão e cassação alcançáveis com mais facilidade; 2º) A fiscalização for mais frequente e intolerante; 3º) A aplicação das sanções e penas forem imediatas, eficazes e sem tantas possibilidades para recursos protelatórios.
Essa fundamentação teórica justifica a majoração das multas vigente desde o dia 1º de novembro, mas por que, ainda assim, há quem possa tentar caracterizar tal medida como imprópria?
Há vários vieses que poderiam ser abordados, mas um em especial parece retratar bem o que se denomina como psicologia social dos comportamentos transgressivos, a teoria do desengajamento moral.
A psicologia social é uma ciência que estuda como influenciamos e somos influenciados pela presença real ou imaginada de outras pessoas. O trânsito é um ambiente de constante interação social, portanto um “laboratório” muito apropriado para a aplicação das teorias dessa ciência.
Todo indivíduo busca manter e expor uma boa imagem de si mesmo para obter aprovação social, mas, por outro lado, procura também se distinguir em busca de reconhecimento e admiração. Queremos pertencer a um grupo, mas também queremos ser vistos como únicos e singulares. Transpondo para a realidade do trânsito, queremos transitar em harmonia e segurança, mas queremos ser vistos com veículos poderosos, sem que ninguém atrapalhe ou atrase nosso percurso e que haja sempre uma vaga disponível para estacionarmos.
Usamos da nossa “racionalidade” para justificar nossa sobrelevação social. Por exemplo, os primeiros monarcas justificavam sua posição como um “direito divino”, já o sistema social indiano parte da crença de que aqueles que nascem numa casta baixa pagam nessa vida um “carma ruim” do passado.
A transgressão no trânsito segue essa capacidade que temos de “racionalizar” nossa conduta delituosa, somos capazes de construir explicações racionais para nos justificarmos perante um comportamento sabidamente errado, perante nós mesmo e perante outrem, são “desculpas” casuais.
Esse processo se dá por meio de uma “auto-enganação” pela qual julgamos nosso comportamento perante padrões exclusivamente nossos e ajustamos nossa sentença em nosso favor e perante os demais, antecipando possíveis consequências indesejadas. Curioso é que a maior parte das transgressões, e das consequentes justificações, é cometida por “pessoas boas”, não por sociopatas.
Há oito mecanismos identificados para esse processo:
1)    Justificação Moral: Reconstrução cognitiva que representa a transgressão como a serviço de propostas morais valorizadas: “”Posso ultrapassar o sinal fechado de madrugada porque é perigoso ficar parado na rua à essa hora.“ ou “Posso pendular a moto nas curvas das estradas porque é mais seguro.”
2)    Linguagem Eufemística: Mascaramento das atividades repreensíveis pela forma com são nomeadas: “Bebi só uns chopinhos de nada antes de dirigir”.
3)    Comparação Vantajosa: Condutas prejudiciais parecem pequenas quando comparadas com atividades mais repreensíveis. “Se não estivesse fazendo tele-entrega sem CNH, estaria roubando.”
4)    Difusão da Responsabilidade: Quando todo mundo é responsável, ninguém se sente responsável. “Todo mundo estaciona em vagas para deficientes, então também posso”.
5)    Deslocamento da Responsabilidade: “Ultrapassei pelo acostamento porque o governo não duplicou essa rodovia.”
6)    Distorção das Consequências: Minimizar ou evitar encarar os efeitos nocivos e que os fins justificam os meios. “Estava atrasado para uma reunião importante, por isso tive que correr um pouco.” ou “Parei em fila dupla só um instantinho para pegar meu filho que saía do colégio”.
7)    Desumanização: Quando se retira das pessoas suas qualidades humanas ou atribui-se a elas qualidades bestiais, anulando a necessidade de respeito. “Esses motoboys são uns –cachorros-loucos-, tem mais é que morrer um por dia mesmo.”
8)    Atribuição da Culpa: Ver a si mesmo como vítima pressionada a agir de forma prejudicial, ou então a ver suas vítimas como merecedoras de seu prejuízo. “Esses velhinhos ficam passeando pelas ruas sem prestar atenção e aí a gente acaba passando por cima de um.”
Esses mecanismos é que cotidiana são empregados naquilo que popularmente chamamos de “jeitinho brasileiro”, o qual, às vezes com informalidade, às vezes com presunção, causa desdém às normas e materializa a malandragem que dá a luz à corrupção e ao desrespeito cujas consequências são notícias de acidentes e mortes no trânsito diariamente banalizadas como “normais”.
Enfim, não caia na falácia da “indústria da multa”, esse é o maior argumento daquele que procura se desengajar moralmente do cumprimento e do respeito às leis. Não existe indústria da multa, existem infratores sendo punidos, e deveriam ser muitos mais, pois, para cada multa aplicada há muitas e muitas que deixaram de ser pela incapacidade de onipresença do estado, pela tolerância e, até mesmo, pela corruptibilidade.
Fonte